– Não se mexe!
Eram 5 da manhã quando Adriana acabara de voltar de uma danceteria, sentiu o cano gelado da pistola 9mm do bandido entre a penúltima e a última costela.
– Abre a porta e entra sorrindo, como se fôssemos amigos – disse o bandido, bem vestido e sem aspecto ameaçador.
Obediente, Adriana entrou no seu prédio, no número 137 da Avenida Rainha Elizabeth. No elevador, suas pernas tremiam. Respirava ofegante por causa da tensão. Chegaram a seu apartamento, o 1506. Ninguém em casa, Adriana morava sozinha.
- Fecha a janela.
- Claro.
- Onde fica o cofre?
- Não tem cofre. Guardo o dinheiro naquela gaveta.
- Então vai lá e pega. Mas sem gracinhas, viu?
- Olha, eu quero colaborar.
- Quer? Então diz aí, cadê as jóias?
- Não tenho jóias.
- Olha…
- Juro…
- E o celular? Tá aonde?
- É pré-pago, mas pode pegar. Toma.
Subitamente, um ensurdecedor som de sirene irrompeu o ambiente, quebrando o silêncio, mas não a tensão. Na rua, três carros de polícia com policiais fortemente armados posicionaram-se em frente ao edifício. Ao lado deles, cinco carros da imprensa, nacional e internacional. O drama de Adriana estava na TV. E o mundo passou a mirar aquela fresta de janela no 15º andar de um prédio até então qualquer.
Poucos minutos depois, para alvoroço geral, Adriana apareceu na janela. Trazia o seguinte cartaz, escrito em letras de forma: “ELE VAI SE COMUNICAR ATRAVÉS DO MEU TWITTER”. Em seguida outro cartaz dizia “SIGAM @DRIKAROCK89”. Em minutos, o Twitter @drikarock89 era o mais seguido da internet em todo o mundo, atingindo a incrível marca de 368.692.771 seguidores. Era como se toda a França e Inglaterra a seguisse. Todos apreensivos pela primeira mensagem. E ela veio, traduzida pelo @translatingadriana, prontamente criado por um professor de português e inglês.
@drikarock89: Quero um carro blindado com um motorista.
Em seguida, milhões de RTs. Milhares de replies. Três foram os posts mais retwittados.
@augustopereira: @drickarock89: Blindado? Meu tio tem uma loja de blindagens. Telefone 2032-3213. Faz em 2 dias.
@carlospinto @drickarock89: Com esse trânsito, tomara que a blindagem seja boa, porque a polícia vai atirar de perto.
@rafaelcerpa @drickarock89: Deixar de ser idiota! Pede um helicóptero, burro.
A polícia rapidamente cadastrou-se no Twitter com o nome de @PMilitar e usou a foto do Capitão Nascimento como avatar. @PMilitar logo passou a seguir @drikarock89, mas não sem pedir para que a mesma a seguisse. Assim que ela obedeceu, @PMilitar enviou uma DM para o facínora:
@PMilitar @drikarock89 Calma. Está tudo bem aí?
@drikarock89 A polícia me mandou isso por DM: “Calma. Está tudo bem aí?”
@drikarock89 Tudo bem é o caralho! Meu blindado com motorista. Ou o próximo post da Adrianaserá póstumo.
A polícia, vendo que seus DMs seriam publicados pelo bandido, passou a twittar publicamente.
@PMilitar Precisamos de uma prova de que a moça está bem.
@drikarock89 Cliquem nesse link, seus merdas: http://twitpic.com/p97lka
Um link do Twitpic mostrava Adriana tranquila, com um sorriso afável para a câmera. Alívio geral. Deboche também na mesma proporção.
@julinho Gostosinha essa @drikarock89, hein? Morre fácil.
@chico_xavier @drikarock89 Fica tranquila, menina, se você morrer pode se comunicar com a família através de mim.
@xuxameneghel2 @drikarock89 Farei um apelo no meu programa. Caso aconteça algo com você, seus filhos serão educados em inglês.
@brunoXC @drikarock89 #drikafree.
Percebendo a proporção que o fato tomou e testando vaidosamente o poder do Twitter, o assaltante disparou o seguinte post:
@drikarock89 Se a tag #drikafree não entrar nos Trending Topics em uma hora, a moça morre.
Esse post foi o suficiente para que, em 10 minutos, #drikafree liderasse os Trending Topics do Twitter.
@drikarock89 @PMilitar Viu, seus babacas. Eu e o povo queremos libertar a moça, mas sem o carro e o motorista, nada feito.
@PMilitar Se entrega, prometemos não agredir você.
Segundos depois, pra surpresa geral, @drikarock89 publica o seguinte post:
@drikarock89 Agora quem tá escrevendo é a Adriana. Pai, mãe, eu amo vocês. Por favor, entreguem o carro.
Uma equipe do Fantástico, da Rede Globo, que estava alocada para fazer uma matéria sobre o nascer do Sol e sua influência nas orquídeas no Jardim Botânico, foram rapidamente para casa dos pais de Adriana, no Catumbi, onde mostrou ao vivo a reação da família. A mãe se benzeu, o pai apertou o terço com força. Dois tios se abraçaram. A avó, como não entende de Internet, achou que a neta estava selecionada para o BBB e pediu um beijo para o Pedro Bial. Segundos depois, o perfil @familiadaadriana publicou uma foto com a família toda segurando uma placa, na qual se lia “Drika! Te amamos!”.
@drikarock89 Sou eu de novo, o bandido. Cadê meu carro?
@PMilitar Está a caminho…
Nessa altura, tanto a twittosfera quanto a mídia tradicional em todo o mundo só falava do caso Adriana. O planeta parou para acompanhar o sequestro. Orações em diversas línguas, para diversos deuses, foram postadas no Twitter.
Passou-se uma hora sem comunicação alguma entre ambas as partes. Nem @drikarock89, nem @PMilitar twittavam. Até que Adriana twittou.
@drikarock89 Gente! O bandido fugiu pelo terraço. Mas me obrigou a esperar 10 minutos antes de divulgar. Estou LIVRE!!!!!!!
Segundos depois, a polícia invadiu o apartamento. Com lágrimas nos olhos, Adriana abraçou um policial. Em meio à comoção, um único pensamento assaltava seu pensamento: “Como é fácil conseguir bilhões de seguidores com uma pequena mentira”.